Muitos jovens adultos sentem que estão a ficar para trás: custo de vida elevado, casas quase impossíveis de pagar, contratos a prazo no trabalho. Ao mesmo tempo, surgem manchetes a dizer precisamente o contrário: quem tem hoje entre 18 e 27 anos poderá tornar-se, em poucas décadas, a geração com maior poder financeiro de sempre. Como é que estas duas realidades cabem na mesma história?
Entre a crise da habitação e patrimónios recorde
Para quem integra a chamada Geração Z, o quotidiano é frequentemente vivido em modo de pressão constante. Em muitas grandes cidades, até um salário de tempo inteiro mal chega para arrendar um apartamento pequeno. Estudantes e recém-licenciados acabam por partilhar quartos, regressar à casa dos pais ou passar horas em deslocações - tudo para conseguirem, simplesmente, um teto.
Apesar disso, uma análise recente da Bank of America traça um cenário surpreendente: numa perspetiva global, esta geração jovem acumulou, em apenas dois anos, cerca de 9.000 mil milhões de dólares americanos em património. A projeção aponta para 36.000 mil milhões até 2030 e para 74.000 mil milhões até 2040.
"A longo prazo, a Geração Z caminha para se tornar o bloco etário mais rico da história moderna - apesar de, neste momento, viver muitas vezes em condições precárias."
O contraste é evidente: de um lado, relatos sobre estágios não remunerados, salários de entrada fracos e rendas a disparar; do outro, contas de analistas a indicarem que este mesmo grupo poderá concentrar, dentro de algumas décadas, uma fatia decisiva do património.
O conceito-chave: uma onda de heranças gigantesca
A explicação centra-se num fenómeno que economistas debatem há anos: uma transferência de riqueza sem precedentes, das gerações mais velhas para as mais novas. Segundo a Bank of America, até meados da década de 2040 deverão ser transmitidos, a nível mundial, cerca de 84.000 mil milhões de dólares americanos por via de heranças.
Este dinheiro tem origem sobretudo em imóveis, participações em empresas, carteiras de títulos e seguros de vida, acumulados ao longo de décadas pelos baby boomers e por coortes mais antigas. Uma parte considerável seguirá, primeiro, para a Geração X e para os Millennials - mas uma parcela significativa acabará por chegar, direta ou indiretamente, à Geração Z.
- Volume total da transferência de património: aprox. 84.000 mil milhões de dólares americanos
- Período: aproximadamente até 2045
- Percentagem da Geração Z com heranças: cerca de 38 %
- Crescimentos patrimoniais anuais esperados: na casa dos percentuais altos de um dígito
Alguns sinais já são visíveis. A Bank of America tem observado, há meses, um aumento dos valores patrimoniais em contas, carteiras e soluções de poupança associadas a clientes jovens. Uma parte advém do próprio trabalho, mas uma fatia crescente resulta de doações e de adiantamentos de herança feitos por pais e avós.
Porque a Geração Z consome de forma tão diferente
Em paralelo com estes movimentos, o padrão de consumo também se altera. Muitos jovens já colocaram em pausa - ou abandonaram por completo - o guião tradicional de vida: formação, emprego estável, casamento, casa própria e filhos. Em muitos casos, falta dinheiro para comprar; noutros, falta segurança para assumir compromissos de longo prazo.
Em vez disso, tornam-se claras outras prioridades:
- Experiências em vez de propriedade: viagens, festivais, escapadinhas e eventos surgem, muitas vezes, acima da poupança para uma casa.
- Compras online: moda, tecnologia e pequenos artigos de lifestyle são adquiridos de forma impulsiva e conveniente, com um clique.
- Foco no bem-estar: crescem os gastos com fitness, saúde mental, coaching e ofertas de mindfulness.
- Trabalhos mais flexíveis: muitos procuram propósito e autonomia, em vez de hierarquias rígidas e obrigação de presença no escritório.
"Dinheiro que não vai para imóveis e para a criação de família tende a canalizar-se mais para consumo, autocuidado e serviços digitais."
É precisamente esta combinação que torna a Geração Z especialmente apelativa para empresas em todo o mundo. Quem compreender cedo as suas necessidades pode influenciar setores inteiros - do turismo ao fintech, passando pelo entretenimento e pela saúde.
Riqueza, sim - mas distribuída de forma muito desigual
No meio de tantos milhares de milhões, há um ponto essencial: nem todos os jovens beneficiam da mesma maneira. Já hoje se percebe uma divisão acentuada dentro da geração. Quem tem pais com património imobiliário, participações e reformas confortáveis recebe, muitas vezes, apoio desde cedo - através de doações, ajuda na renda ou pagamento de propinas e custos de estudo.
Outros, pelo contrário, começam com dívidas, trabalham enquanto estudam e financiam cada euro do seu próprio bolso. Para estes, falar do “grupo etário mais rico de sempre” pode soar quase a sarcasmo.
| Grupo | Condições de partida | Perspetiva a longo prazo |
|---|---|---|
| Com heranças | Património familiar, propriedade em pano de fundo | Construção de património mais cedo, maior margem para assumir risco |
| Sem heranças | Dívidas, empregos instáveis, rendas elevadas | Construção de património mais lenta, entrada muitas vezes mais tardia |
A grande questão, portanto, é esta: a Geração Z ficará rica como conjunto, ou será apenas uma minoria privilegiada - e visível - dentro do mesmo grupo etário? Vários especialistas alertam que a distância entre quem herda e quem não herda pode aumentar ainda mais.
Como os mercados e a política se estão a preparar para a Geração Z
Para empresas e mercados financeiros, a mensagem é inequívoca: a preparação para uma base de clientes jovem, com mais capital nas mãos nos próximos anos, já está em marcha. Os bancos desenham produtos de poupança e investimento alinhados com hábitos digitais e percursos profissionais menos lineares. Serviços de streaming, plataformas de gaming e gigantes das redes sociais disputam atenção - e, com ela, a futura capacidade de compra.
Também a política começa a sentir pressão. À medida que a vaga de heranças se aproxima, ganham peso temas como fiscalidade, justiça social e igualdade de oportunidades. Alguns economistas defendem impostos sucessórios mais elevados e maior investimento em educação e infraestruturas, para que jovens sem pais com património não fiquem permanentemente para trás.
"O poder económico da Geração Z não vai apenas deslocar mercados; vai também gerar pressão política - por exemplo, em temas como habitação, clima e proteção social."
O que os jovens adultos já podem fazer hoje
Mesmo com incerteza, existem alavancas que muitos membros da Geração Z podem usar desde já:
- Literacia financeira: compreender juros, ETFs, armadilhas de dívida e impostos aumenta a probabilidade de gerir bem patrimónios futuros.
- Investir cedo: quantias pequenas em soluções diversificadas podem crescer de forma impressionante ao longo de décadas.
- Construir redes: contactos em setores, iniciativas e comunidades abrem portas que o dinheiro, por si só, nem sempre compra.
- Escolher profissões com futuro: áreas como TI, cuidados de saúde, energias renováveis e serviços apoiados por IA oferecem, muitas vezes, melhores perspetivas.
Ao mesmo tempo, vale a pena avaliar riscos com frieza: experiências especulativas com criptoativos, promessas de “enriquecimento rápido” no TikTok ou supostos gurus de trading online podem destruir poupanças em poucos dias. Quem já tem pouca margem sente estas perdas de forma ainda mais dura.
Porque a Geração Z não deve ser dada como perdida, apesar do cenário sombrio
O ponto de partida parece contraditório: nunca tantos jovens falaram de ansiedade em relação ao futuro, pressão psicológica e aperto financeiro. E, ainda assim, os números apontam para a possibilidade de montantes históricos de riqueza.
As duas coisas podem ser verdade ao mesmo tempo. As próximas décadas dirão se o património projetado se dissemina de forma ampla ou se fica concentrado em poucas mãos. O que é certo é que a Geração Z não traz apenas capital: traz também prioridades diferentes - maior sensibilidade ao clima, à justiça social e às liberdades digitais. Esta combinação de dinheiro, tecnologia e valores tem potencial para mexer profundamente com a sociedade, os mercados e a política.
Para muitos, tudo isto pode parecer distante. Ainda assim, a pergunta já se coloca hoje: como querem viver, trabalhar e consumir quando - e se - os milhares de milhões prometidos chegarem? Quem refletir cedo sobre isso pode ganhar vantagem, independentemente do saldo atual.
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